19 de nov. de 2011

Ser ator*

Não é simples a vida de quem escolhe seguir o caminho de viver outras vidas. Atuar é um exercício doloroso que, a todo instante, nos joga na cara nossos próprios defeitos e imperfeições. Conheço poucos atores que vêem o ofício como uma profissão. A maioria deles a vê como uma missão, um fardo, um karma. Digo isso dos atores de fato: daqueles que se empenham em identificar no personagem algum ponto de empatia e, a partir dele, penetrar seus próprios medos tentando, vez por outra, não se envolver demais no conflito fantasioso que é travado dentro de si. No mundo do entretenimento, o sucesso virou também uma necessidade. Por isso falo dos atores de verdade, pois no grande saco de sortimentos que nos é apresentado todos os dias pelo mercado, existem também os atores de carreira, que optaram em seguir a profissão para aproveitar os contatos, a beleza, a visibilidade ou as regalias que são comumente oferecidas aos profissionais da imagem. Ironicamente, os que optam por esta via fácil de compreensão do outro acabam se perdendo dentro de si mesmos. Porque o ator de verdade é uma espécie de santo. Um sacerdote que tem como missão entender e apresentar aos outros um novo viés de entendimento de uma mesma questão, uma nova versão dos fatos, outra possibilidade de compreensão. E não é fácil ter que enfrentar todos os dias seus fantasmas. Desconheço um ator de verdade que nunca tenha pensado em desistir. A mudança de profissão, em geral, faz parte do imaginário latente de todos os sacerdotes deste ofício. Muitos deles, de fato, já se arriscaram em outras linhas, tentaram um novo traçado. Mas acabaram voltando, humildes e inseguros à sua missão kármica de vida. Atuar é um exercício contínuo de paciência. Paciência consigo mesmo: por suas incapacidades, deficiências, preconceitos e fraquezas; paciência com a família e amigos, que lhe cobram diariamente uma “posição” melhor no mundo, um papel na novela da globo, uma salário fixo no fim do mês, uma relação mais estreita com o despertador; paciência para enfrentar o mercado, que mistura entretenimento e cultura, arte e diversão, descompromisso e experimentação. Atuar é saber, bem no fundo, sua própria verdade, mas desconfiar diariamente dela, como se seu destino fosse guiado por uma mentira sua tão bem contada, que você mesmo foi capaz de acreditar. Ser ator, ao contrário do que parece, não é uma profissão simples e leve. É um ofício complicado e instável, que oscila entre o prazer e o desespero. Um ator não pode medir sua competência como um matemático: não basta resolver uma equação complicada para provar sua capacidade. Os atores serão sempre bons e ruins, dependendo do referencial. Serão sempre bem ou mal sucedidos de acordo com o ponto de vista. E serão sempre, em qualquer hipótese, um poço de insegurança e angústia. Pois só quem se atreve a mergulhar dentro de si é capaz de entender o quão profundas podem ser as questões humanas.

*Crônica escrita por Flávia Prosdocimi a partir de tema enviado por Célia Maria Silva, nossa apoiadora do Catarse.

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