25 de nov. de 2011

As Vicissitudes da Dúvida*

Todo jovem minimamente coerente quer, além de todas as outras coisas boas da vida, aquele maravilhoso ideal romântico de liberdade. É bonito, na teoria. Mas na prática, não é bem assim. Ter liberdade significa ter a possibilidade de escolha. E escolher quer dizer ter que decidir-se por uma coisa, em detrimento de outra. É irônico, mas todo o processo que culminou na montagem do espetáculo Sobre Nós partiu de uma frase simples e inquietante: “Toda escolha é uma perda”. É porque é isso mesmo! A liberdade vem acompanhada da dúvida. Ao escolher um caminho para trilhar, fatalmente você deixa de escolher outro e, como num efeito borboleta, tudo o que acontece a partir daí é um reflexo das decisões que você tomou anteriormente. Ter possibilidades traz a responsabilidade da escolha. E, com ela, o medo do erro e a angústia da decisão. Normalmente, as pessoas se sentem mais confortáveis quando o leque de possibilidades é menor. Se você tem alternativas, o drama não passa de uma questão de múltipla escolha – muitas vezes complicada – mas facilmente contornável. Já quando tudo é possibilidade, a liberdade esbarra na indecisão, no medo, na falta de criatividade e, em casos mais extremos, na total paralisia e passividade. Ao se abster da decisão, porém, o individuo passa a decidir pela não ação e, portanto, paradoxalmente, acaba resolvendo o impasse. Mas não se livra da angústia causada pelo medo de ter tomado a decisão errada. Por isso, ouso dizer, a liberdade é para poucos. Apenas pessoas absolutamente intensas e levemente inconsequentes sabem lidar com os reais efeitos colaterais das possibilidades infinitas. Nós, reles mortais, preferimos simular a liberdade, lidar com nossas questões de múltipla escolha, brincar com as variações sobre o mesmo tema. Quando estamos insatisfeitos com o trabalho, por exemplo, pensamos em mudar de empresa, de setor, talvez até de área. Mas não pensamos em abandonar tudo e ir morar no Alasca. Essa, simplesmente, não é uma possibilidade. E, se você quer saber, acho que é bem melhor assim. A gente passa a vida toda tentando não nos sentir sozinhos, tentando encontrar pessoas que nos façam ter uma sensação de segurança, tentando passar essa segurança pras pessoas que nós amamos. Nem sempre nós conseguimos, mas este caminho controla, de certa forma, a angústia, e faz com que a existência seja um pouco menos dolorosa. A liberdade é castradora. Joga-nos na cara, o tempo todo, o quanto somos medrosos e pouco ousados. Melhor mesmo é continuar com nossas imensas questões irrelevantes. Duvida???

*Crônica escrita por Flávia Prosdocimi a partir de tema enviado por José Maria Lobato, patrocinador do espetáculo “Sobre Nós” através do Catarse.

23 de nov. de 2011

Extra! Extra!

Essa é para quem gosta de um bom flagra! E já serve como introdução ao universo de alguns personagens da peça.

Afinal, há menos de 10 dias da estreia, a melhor coisa é dar uma relaxada para aliviar a tensão!

Clique na imagem abaixo e leia a reportagem!

Fragmentos

Alguns cliques durante os ensaios!



21 de nov. de 2011

19 de nov. de 2011

Ser ator*

Não é simples a vida de quem escolhe seguir o caminho de viver outras vidas. Atuar é um exercício doloroso que, a todo instante, nos joga na cara nossos próprios defeitos e imperfeições. Conheço poucos atores que vêem o ofício como uma profissão. A maioria deles a vê como uma missão, um fardo, um karma. Digo isso dos atores de fato: daqueles que se empenham em identificar no personagem algum ponto de empatia e, a partir dele, penetrar seus próprios medos tentando, vez por outra, não se envolver demais no conflito fantasioso que é travado dentro de si. No mundo do entretenimento, o sucesso virou também uma necessidade. Por isso falo dos atores de verdade, pois no grande saco de sortimentos que nos é apresentado todos os dias pelo mercado, existem também os atores de carreira, que optaram em seguir a profissão para aproveitar os contatos, a beleza, a visibilidade ou as regalias que são comumente oferecidas aos profissionais da imagem. Ironicamente, os que optam por esta via fácil de compreensão do outro acabam se perdendo dentro de si mesmos. Porque o ator de verdade é uma espécie de santo. Um sacerdote que tem como missão entender e apresentar aos outros um novo viés de entendimento de uma mesma questão, uma nova versão dos fatos, outra possibilidade de compreensão. E não é fácil ter que enfrentar todos os dias seus fantasmas. Desconheço um ator de verdade que nunca tenha pensado em desistir. A mudança de profissão, em geral, faz parte do imaginário latente de todos os sacerdotes deste ofício. Muitos deles, de fato, já se arriscaram em outras linhas, tentaram um novo traçado. Mas acabaram voltando, humildes e inseguros à sua missão kármica de vida. Atuar é um exercício contínuo de paciência. Paciência consigo mesmo: por suas incapacidades, deficiências, preconceitos e fraquezas; paciência com a família e amigos, que lhe cobram diariamente uma “posição” melhor no mundo, um papel na novela da globo, uma salário fixo no fim do mês, uma relação mais estreita com o despertador; paciência para enfrentar o mercado, que mistura entretenimento e cultura, arte e diversão, descompromisso e experimentação. Atuar é saber, bem no fundo, sua própria verdade, mas desconfiar diariamente dela, como se seu destino fosse guiado por uma mentira sua tão bem contada, que você mesmo foi capaz de acreditar. Ser ator, ao contrário do que parece, não é uma profissão simples e leve. É um ofício complicado e instável, que oscila entre o prazer e o desespero. Um ator não pode medir sua competência como um matemático: não basta resolver uma equação complicada para provar sua capacidade. Os atores serão sempre bons e ruins, dependendo do referencial. Serão sempre bem ou mal sucedidos de acordo com o ponto de vista. E serão sempre, em qualquer hipótese, um poço de insegurança e angústia. Pois só quem se atreve a mergulhar dentro de si é capaz de entender o quão profundas podem ser as questões humanas.

*Crônica escrita por Flávia Prosdocimi a partir de tema enviado por Célia Maria Silva, nossa apoiadora do Catarse.